Júlio César Martins Barros

Era dia dos pais.

- Faz o churrasco lá pra gente, Júlio.

- Ah, não! Hoje é dia dos pais. Eu não faço nada, vocês é que fazem.

- Acende a churrasqueira pelo menos.

- Tá bom, tá bom.

Churrasqueira acesa, Júlio sai da casa de sua mãe e vai para a dele, logo ao lado, para tomar banho e voltar mais tarde.

Enquanto está no chuveiro começa a sentir um mal estar que sobe pela barriga. A sensação é incômoda e crescente. De tão forte, a queimação faz a língua arder.

Ele sai do banho com a ideia de deitar em sua cama e esperar que aquele mal estar passe. Júlio não sabia, mas aquele era o seu primeiro infarto. Não se sentindo melhor, chama sua filha.

- O que foi? Você não tá bem?

- Não. Me leva pro hospital.

Coloca uma bermuda, senta no banco da frente do carro e segue para o pronto socorro de um hospital em Campo Grande. A atendente ainda queria que preenchessem uma ficha, mas ele acaba conseguindo entrar mais rápido.

À medida que a morfina se infiltra na corrente sanguínea e percorre as artérias de Júlio, o mal estar que sentiu no banho desaparece. Os sedativos surtem efeito, ele apaga.

Quando acorda, no mesmo dia, horas depois, o quadro é outro. Júlio percebe que está entubado, num quarto do Centro de Tratamento Intensivo do hospital.

“Foi assim, de uma hora pra outra, que a minha vida mudou.”

Pouco mais de cinquenta anos atrás, nascia, no município de Dourados, Júlio César Martins Barros, filho de policial federal mineiro com mãe de origem paraguaia. Ainda criança se mudou com a família para Presidente Epitácio, interior de São Paulo. Voltou para Mato Grosso do Sul em 1981, trabalhando em um banco. Desde 1987 entrou na administração pública estadual, e em 2007, por meio do trabalho no ramo orçamentário, veio até a AGRAER, onde se tornou diretor social de sindicato. Está de licença, desde o ocorrido em agosto passado.

Júlio tem três irmãs e um irmão, que moram em Campo Grande. Dos cinco, só ele não se tornou professor, e por motivos circunstanciais seguiu uma profissão na área administrativa. Apesar disso, aprende com a vida e sabe como poucos dar aula de perseverança.

“Sou guerreiro, apesar de não torcer pelo Fluminense. Sou santista. Mas tenho otimismo na vida.”

Três dias depois do episódio no dia dos pais, Júlio teve alta do CTI do hospital e voltou pra casa. Tinha que ficar descansando, mas como se sentia bem disposto decidiu voltar à rotina de antes. Três meses depois, o coração deu outros sinais de fadiga. Dessa vez o infarto se manifestou de outra forma, ao invés da queimação, sentia falta de ar, e não conseguia dormir. Teve de ir ao hospital novamente, onde ele ficou 26 dias entre CTI e apartamentos no mês de novembro de 2010.

Desde 1998, Júlio vai ao cardiologista, faz exames de rotina. Naquela época seu médico o alertara para os riscos da insuficiência cardíaca. Mas ele se sentia bem e, apesar das recomendações para maneirar no futebol, continuava sua vida normalmente. Mas os ocorridos no fim do ano passado foram mais que suficientes para que ele repensasse sua maneira de viver.

“Em dezembro fui ao médico e ele finalmente me contou o que minha família e alguns amigos já sabiam uns meses antes de mim: eu preciso do transplante de coração. Na hora o chão some... aí, aos poucos, você vai se recuperando do susto e o doutor começa a explicar que as chances são muito boas e que hoje a medicina está bem avançada nessa área, e então você fica mais tranquilo. E eu sou um cara que reage bem às coisas”.

Para nossa entrevista acontecer tivemos que adiar alguns dias em função de um tratamento odontológico que Júlio faz se preparando para o transplante de coração. Sim, odontológico. O corpo todo deve estar nas melhores condições para receber a doação, porque órgão doado torna-se um bem público e como tal existe uma série de critérios para que o paciente seja aceito na lista de espera. Dessa forma, a rotina na AGRAER ou como diretor social de sindicato foi sendo substituída pelas frequentes idas a hospitais, onde faz exames e se prepara para o dia do transplante.

“Eu costumava jogar bola quinta-feira, sexta-feira, e tive que parar. Também não posso beber nada alcoólico. Fumei desde a adolescência, por mais de 35 anos, mas o cardiologista disse que devo ter pelo menos seis meses de abstinência do cigarro para transplantar, e desde então faz oitenta dias que eu estou sem fumar. Tenho que ir amanhã cedo e a tarde ao médico.”

Junto com sua esposa, Isabel Lopes Barros, Júlio tem duas filhas: Maiana Lopes Barros, de 23 anos e Bruna Lopes Barros, com 22 anos. Como já trabalham e fazem faculdade devem ficar em Campo Grande enquanto Júlio se prepara para mais uma grande mudança em sua vida: se mudar para São Paulo por alguns meses, esperando para o dia do transplante de coração. Como a convocação é feita e o paciente deve estar prontamente disposto para a operação, essa ida pra capital paulista é necessária.

“Você acredita que tem amigos daqui do Estoril que estão morando em Limeira, cidade que fica à uma hora e meia de São Paulo, e que me chamaram pra morar junto?!”

Desde que trabalhou em banco, Júlio se sentia bem quisto pelas pessoas e sempre agia com o pensamento de não se arrepender depois. Nunca fez algo esperando uma retribuição como a que está recebendo agora, espontaneamente, das pessoas ao seu redor. Faz mais de cinco anos que é sócio do Clube Estoril e percebe como cultivou boas amizades.

“Eu que era atuante, com uma rotina intensa, sofri um baque na autoestima com essa mudança toda. Mas os meus amigos me deram tanta força que eu estou superando tudo. Fizeram até grupo de oração sabe, chega a emocionar. O Clube ajuda muito e eu sou muito agradecido ao pessoal do futebol, da diretoria, nunca deixaram de prestar solidariedade.”

O que é ser Júlio Barros?

“É ser otimista, guerreiro. É bom ver os seus filhos vencendo e você participando dessas vitórias. Ver a sociedade evoluindo. Eu acredito que as coisas não acontecem de graça, são batalhas, obstáculos que você deve vencer. Estou preparado pra tudo que vier, mas quero vencer, e com a solidariedade dos outros vai ser mais fácil, me sinto até mais leve.”

Após o transplante de coração, Júlio de Barros voltará para Mato Grosso do Sul possivelmente aposentado. Mas esclarece:

“Não sou do tipo que põe bermudão não. Se eu vier a ser aposentado, vou arranjar o que fazer. Como gosto de viajar, é possível que comece a trabalhar com um sobrinho no sul do estado fazendo entregas por vários municípios. Mas aí é um trabalho diferente, porque eu gosto muito de viajar.”

Para quem a vida se renova a cada batida do coração, as mudanças que os dias trazem só alimentam a vontade de vencer. Em meio às tempestades só não naufraga quem percebe nos amigos o vento que alimenta as velas na direção da terra firme. Só há segurança no amor, e isso, Júlio aprende todos os dias. Despedimo-nos com um sorriso no rosto e com promessas de uma próxima entrevista, depois do transplante.

André Patroni