Jorge D'ávila

O eterno aprendiz

Com 37 anos, Jorge D'ávila começa o doutorado e explica que a Educação Física é mais abrangente que o futebol de salão

Era manhã ensolarada de quinta-feira e acontecia um seminário no Centro de Ciências Humanas e Sociais da UFMS. Reunidos no anfiteatro da universidade com o propósito da integração, mestres e doutores. Entre eles, um jogador de peteca, Jorge D'ávila. Seu telefone recebe uma chamada, ele se levanta, sai e assim a entrevista começa.

Graduado em 1997 no curso de Educação Física, Jorge atuou como professor na rede municipal de ensino desde que passou num concurso em 2000. Há dois anos entrou na secretaria de educação municipal e em setembro do ano passado terminou o mestrado, emendando o início de seu doutorado em Educação que deverá durar até daqui quatro anos. Com tanto tempo de atuação na área dos saberes, descobriu uma importante lição "a cada dia se deve aprender coisas novas".

Com o espírito aberto ao aprendizado, descobriu o esporte que lhe faria sócio do Clube Estoril, a peteca. Na época em que dava aulas, teve a ideia de quebrar um certo paradigma "um dos problemas pelo que passa a Educação Física é a limitação da prática esportiva restrita ao Vôlei, Basquete, Futebol, Handebol, e de vez em quando um pouco de atletismo. Para mostrar que existem outras práticas e, em certa medida, formar cidadãos mais críticos, começamos a trabalhar a peteca nas aulas". Dessa forma, além de estimular e treinar o reflexo dos alunos, Jorge também mostrava que havia mais esportes no mundo que o futebol que sempre passa na tv "mostrando que a mídia influencia naquilo que eles conhecem".

Falando em mídia, certa vez D'ávila telefonou para um veículo impresso de Campo Grande para divulgar um evento de peteca. O propósito pareceu tão inusitado para o jornalista que o atendeu, que a princípio ele não acreditou no que Jorge dizia "eu liguei lá e o cara achou que eu tava de sacanagem, falou - eu aqui trabalhando, não tenho tempo pra você me passar trote. Aí eu tive que explicar pra ele que era verdade, fiquei meio chateado com o jeito que ele me tratou e quando ele percebeu o que eu queria, pediu até desculpas. Hoje eu entendo isso melhor, encaro a reação das pessoas com bom humor".

A peteca é um esporte brasileiro de origem indígena, queima calorias e requer agilidade, mas ainda sofre preconceito no senso comum por puro desconhecimento, tendo até conotação homossexual porque exige que o jogador "quebre a munheca" para dar os lances. Mas Jorge deixa claro que o esporte é livre pra participação de todos e é uma importante prática esportiva. Foi graças à peteca que ele se associou ao clube. "Minha esposa é filha de um sócio antigo, e era dependente dele. Mas desde 2006 eu também passei a ser sócio porque percebi que o clube tinha um número razoável de pessoas que conheciam a peteca". Assim, conversando com a diretoria do clube na época, conseguiram pintar uma das quadras, que agora também tem as medidas para receber torneios desse esporte.

Foram quatro campeonatos no Estoril, e Jorge foi vice de dois, um estadual e outro municipal. Justifica que não tenha ganhado "porque o finalista era um militar de Minas Gerais, estado onde o esporte é muito praticado". Em Campo Grande são cerca de 30 pessoas envolvidas com o esporte, e juntos criaram a Federação que não foi oficializada por falta de recursos financeiros, mas existe. "Fizemos ata, reunião, mas faltou regularizar em cartório". Como ensina a cartilha do pioneirismo, enfrentam dificuldades, limitações e por isso, toda abertura que encontrarem para desenvolver o esporte será bem vinda.

Jorge tem dois filhos gêmeos com sua esposa Simone Albuquerque dos Santos, o Danilo dos Santos D'ávila e o Gabriel dos Santos D'ávila, com 6 anos. Mas como professor, Jorge aprendeu a ser pai de muitos outros.

Declaradamente tem preferência por atuar em escolas públicas, embora no momento esteja desempenhando funções de gabinete, longe das quadras e das aulas de educação física. Seu envovimento com o ensino ultrapassa a questão do desenvolvimento motor, diz respeito à formação de futuros cidadãos "a educação física é prática, mas requer muita teoria. A intenção não é formar 'atletas'. Não devo apenas ensinar os alunos a praticar um esporte, mas tenho que abrir os seus olhos para o mundo, explicar por que eles têm menos que outros, por que seus pais ganham menos que os pais dos outros, por que existe essa exploração. É evidente que o professor tem essa função, ele é mais que uma referência, se torna um amigo e muitas vezes a figura de um pai para crianças carentes de recursos e de afeto". Ainda ressalta que o profissional da Educaçao Física tem esse compromisso "o professor tem que se aprimorar, saber o que é a Educação, como é feita no Brasil. Como é que eu vou falar que 'Esporte é Saúde' para uma criança desnutrida?" questiona. E assim, deixa claro sua intenção com o doutorado, debater a formação dos professores da área, sua formação continuada, sua busca pelo conhecimento.

Se depender da inquietude e aspirações deste Jorge, o quadro da Educação só tem a ganhar com quem pensa que "a vida é uma constante busca onde nunca se está pronto".

 

por André Patroni