Maria Rodrigues de Carvalho

Diz a sabedoria popular que não aprendeu a lição da vida quem não domina o medo de cada dia. O medo pode estar num grande desafio ou nos obstáculos diários e permanentes. Maria Rodrigues de Carvalho sabe bem o que isso significa. Dia após dia, a funcionária do mês do Clube Estoril vence suas próprias barreiras e aquelas impostas pelo destino para cuidar de sua filha, de si mesma... e ser feliz.

À frente da cozinha do refeitório há dois anos, Maria começou fazendo um trabalho temporário na limpeza do Estoril durante o período do carnaval, até ser definitivamente efetivada. Adora a profissão que a acompanha desde os 19 anos de idade: cozinhar para muita gente. Mas em casa não se pode dizer que seu local preferido seja a cozinha. “Não quero saber de cozinhar em casa. Na verdade, vou para casa é para passear, minha rotina e a maior parte do meu tempo passo aqui no clube", brinca. Mas ela não reclama dessa atribulação: trabalho de domingo a domingo. “Gosto de trabalhar aqui, todo mundo é uma família”, conta.
Família, aliás, que rendeu belos frutos para Maria. Mãe de quatro filhos, três deles homens, criou sozinha todos eles. Com os mais velhos já casados e com filhos, ela se dedica a acompanhar Juliana, a única filha mulher, que ainda mora com a mãe e depende dela. Julina nasceu sem nenhum problema, uma criança normal. “Ela era perfeita até os três anos. Andava, falava e de repente começou a ter convulsões. Levei em tudo quanto era médico e ninguém descobriu o que aconteceu com ela, mas ela voltou a ser um bebê”, explica. A menina passou a ser dependente de cuidados especiais: “Foi muito difícil de aceitar.”

Depois o baque inicial, Maria passou a atender às necessidades da filha e se dedicar ainda mais. Hoje, Juliana freqüenta o Cotolengo, Instituição que cuida de crianças com algum tipo de deficiência mental. Por ser uma organização beneficente, Maria não paga pelo acompanhamento da filha. “Ela já melhorou muito depois disso. Agora ela entende mais as coisas, consegue sentar, deitar sozinha”, relata. Enquanto Juliana é assistida na instituição, Maria trabalha para manter as duas. “Trabalho por mim e por ela. Acordo às 5h da manhã, dou banho nela, venho trabalhar e só volto no fim da tarde “, detalha. Lá, ela ainda lava, passa, cozinha... todos os compromissos de uma dona de casa comum. “Luto sempre. Mas estou feliz. Tenho saúde para enfrentar a vida, ainda mais na minha idade: saúde, coragem e amigos”, diz.

E toda essa dedicação e força de vontade tem um objetivo. “Minha finalidade é dar uma vida melhor para ela. Que a gente tenha mais conforto, mais qualidade de vida e possa passar mais tempo juntas”, revela. E é parafraseando Fernando Pessoa que terminamos a entrevista da funcionária do mês, com palavras que parecem ter sido escritas para ela.

"Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
Apesar de todos os desafios,
Incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas
E se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si,
Mas ser capaz de encontrar um oásis
No recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica,
Mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou
Construir um castelo"

Por Marina Martins - jornalista responsável